Olhamos lá
na calçada aquele homem vestido de terno xadrez sob um sol de janeiro, com
a Bíblia debaixo das axilas e um andar grave de quem parece ter uma
importante tarefa a ser realizada. E ficamos a pensar: "Será que aquele
homem não vê que as religiões estão cheias de enganos? Será que não sabe
que sua igreja é feita de gente pecadora?" E não nos damos conta de que o
homem, por mais enganado que possa estar quanto ao destino de suas
paixões, está vivendo um sentimento do qual só tocamos a orla: o desejo de
investir-se em símbolos que proporcionem um sentido à
vida. Ficamos a
cultivar a atitude cética de quem apenas diz: "Tudo no mundo é falso, tudo
passa". Pensamos que não vale apenas apostar a vida em nada, porque nada é
seguro, nada é absoluto. E perdemos a oportunidade de degustar as
precárias razões de viver. É preciso
investir-se. Deixar-se possuir por uma esperança. Deixar-se arrebatar pela
fé dos que vêem aquilo que ainda não está presente. Deixar vir de lá das
profundezas da alma um desejo de vida, de eternidade, de
ressurreição. Quando a
vida nos parece cinza, sem graça e vazia de sentido, devemos pensar se não
estamos enterrando, num canto qualquer de nossa indiferença ou orgulho, a
matéria-prima de uma vida mais
plena. A Bíblia
nos conta, no Evangelho de Lucas, no capítulo 10, sobre um homem que
enterrou seus recursos. A parábola, contada por Jesus de Nazaré, refere-se
a um senhor de muitas propriedades que, ao partir em viagem, confiou seu
dinheiro à guarda de seus servos, entregando-lhes dez minas (ou cem moedas
de prata). Quando regressou o senhor, seus servos trouxeram-lhe a quantia
de dinheiro deixada e também aquilo que cada um conseguira arrecadar em
investimentos. Um dos servos, porém, trouxe a mina que estava sob sua
responsabilidade embrulhada num lenço porque teve medo de ser punido pelo
senhor, caso algum investimento malograsse. O senhor, irado, puniu o
covarde servo tirando-lhe a mina que
guardara. Se não
estamos encontrando motivação para trabalhar, para amar ou nem mesmo para
levantar da cama, talvez seja porque temos muito medo de sermos punidos
caso apliquemos nossas forças e valores num projeto que possa ser mal
sucedido. Nosso raciocínio pode ser o seguinte: "Se eu me arriscar a fazer
alguma coisa, talvez erre ou falhe. Por isso é melhor ficar quieto, porque
a punição e a frustração doem
muito." Desta
forma, no primeiro dia deixamos de namorar porque tememos amar a pessoa
errada e sofrer com isso. No segundo dia, começamos a desconfiar do valor
do nosso trabalho. Ao terceiro dia já estamos tão tomados pelo medo de
errar ou de nos frustrarmos que nós mesmos já nos punimos pelo simples
fato de pensar em fazer alguma coisa. Resultado: ficamos travados e
enrolamos nossa vida num lenço, como fez o servo da
parábola. No ano que
se inicia, como em cada segundo, as potencialidades da vida borbulham como
a água que brota da nascente. Degustar dessa água é um gesto de fé. A
mesma fé que deve nos animar a viver amparados pela Graça de Deus, sabendo
que ali onde se manifestam nossas limitações o poder divino é garantia de
completude e força que restaura nossa capacidade de continuar investindo
na vida. Beethoven Nery
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