A leitura do livro de Jeremias é
densa: densa do pecado de um povo obstinado em perseguir o caminho
do erro, mas também densa do amor de Deus que se inclina em buscar
pelo Seu povo e chamá-lo ao arrependimento. Os primeiros capítulos
de Jeremias revelam o amor de Deus que, metaforicamente, aplica a si
mesmo a alcunha de “marido traído” que sai em busca das adúlteras
esposas Israel e Judá (Jr. 3.8,13).
Os pecados transcritos por
Jeremias não são diferentes dos que são cometidos em nossos dias: os
que deveriam fazer justiça, julgam em causa própria; aqueles que
deveriam zelar pela religião, usam-na como mercadoria para manipular
e auferir lucro; aqueles que deveriam governar para o bem do povo,
buscam alianças espúrias e
se esquecem de
buscar a direção segura que é dada por Deus; o povo, que deveria
arrepender-se dos seus pecados e virar as costas para os deuses falsos, virou
as costas para o Deus verdadeiro (Jr. 2.27).
O livro de Jeremias é uma
séria advertência para a vida cristã superficial de nosso tempo.
Tempo marcado pelo abandono “do manancial de águas vivas” e
pelo cavar incessante de “cisternas rotas, que não retêm as
águas” (Jr.2.13). Tempo marcado por templos cheios, mas de gente
vazia de santidade e fidelidade aos princípios do Evangelho. Tempo
marcado por cristãos eufóricos e extravagantes nos templos, mas de
um cristianismo “anônimo” e “imperceptível” tanto da porta da casa
pra dentro quanto da porta da casa para fora. Tempo marcado pela
relativização do pecado, o que se constata no fato de que os
“cristãos modernos” temem muito mais as conseqüências dos seus
pecados do que o próprio pecado. Ora, quando nos ocupamos em cometer
pecados escondidos dos olhos humanos, mas nem nos lembramos dos
olhos de Deus, então é tempo de atentar para a Sua Palavra: “Se
voltares, ó Israel, diz o Senhor, volta para mim; se removeres as
tuas abominações de diante de mim, não mais andarás vagueando (...)
Circuncidai-vos para o Senhor, circuncidai o vosso coração, ó homens
de Judá e moradores de Jerusalém, para que o meu furor não saia como
fogo e arda, e não haja quem o apague, por causa da malícia das
vossas obras” (Jr. 4.1,4).
Nestes dias em que as manchetes
dos telejornais, revistas e jornais estampam tantas denúncias de
corrupção nos poderes legislativo, judiciário e executivo, malas e
caixas com milhares de reais são apreendidas nas mãos de “bispos” e
“pastores” “evangélicos” e jovens-homens-bombas explodem em
Londres... meus olhos se voltam para o livro de Jeremias e tudo isso
parece ser a mesma história, agora encenada por novos personagens e
acrescida de alguns poucos novos ingredientes. O ser humano continua
o mesmo, mas a cada dia se torna ainda mais especializado na arte de
cometer antigos erros.
Há algumas opções a tomar diante
destes cenários. A maioria opta pela revolta, lamúria e difamação
--ainda que em forma de “piadinhas”. Entretanto não tenho dúvida que
a melhor opção foi aquela tomada por Jeremias: permanecer fiel ao
Senhor, ainda que tal
decisão signifique um certo ostracismo (Jr. 16). Fidelidade esta que
se manifesta no cumprimento de sua vocação: “Mas eu não me
recusei de ser pastor, seguindo-te” (Jr. 17.16). Fidelidade que
é demonstrada em viver o
que se crê com muito mais ênfase do que dizer no que se crê.
Fidelidade que se expressa não somente em proclamar a um mundo
pervertido e idólatra sobre a necessidade do arrependimento e da fé
em Jesus
Cristo, como também em interceder diante do trono
de Deus por este mundo a fim de que o Senhor, por Sua graça, derrame
Sua misericórdia sobre nós.
Que o exemplo de Jeremias nos motive a sermos
fiéis ao Senhor!