No seu livro “Culpa e Graça”, o Dr. Paul
Tournier escreveu: “Parece bastante claro que o homem não vive
sem culpa. Ela é universal. Mas ela desencadeia, pouco a pouco, quer
seja reprimida ou reconhecida, dois mecanismos inversos: quando
reprimida, ela dá lugar à cólera, à revolta, ao medo e à angústia, a
uma insensibilidade da consciência, a uma impossibilidade crescente
de reconhecer as próprias faltas e a uma exaltação crescente de
impulsos agressivos. Quando reconhecida conscientemente, ela conduz
ao arrependimento, à paz e à segurança do perdão de Deus, a um
refinamento progressivo da consciência e a um enfraquecimento
progressivo dos impulsos agressivos”.
O sentimento de culpa atormenta-nos a todos,
quer sejamos religiosos ou não. A maneira humana de lidar com a
culpa é a expiação. Os estudiosos da “psiquê” humana asseveram que
muitas doenças físicas e psíquicas, acidentes e frustrações na vida
pessoal e profissional são tentativas de auto-expiação; isto é, uma
forma de punição que o sofredor administra a si mesmo com o
propósito de “saldar a dívida” advinda da culpa.
O moralista usa a sua religiosidade, ou código
moral, a fim de reprimir a culpa. Contudo, reprimir, esconder,
projetar ou negar a culpa, não resolve os tormentos com os quais
sofre a mente culpada. O que se sente “pecador” e “miseravelmente e
desgraçadamente” culpado, por sua vez, busca livrar-se da culpa
mediante a expressão pública das suas faltas. Quase sempre, contudo,
este mecanismo revela-se como uma falsa humildade ou
pseudo-arrependimento, haja vista que a autocomiseração também é uma
tentativa de auto-expiação.
O caminho para a solução do problema
da culpa é simples! No Evangelho de Jesus Cristo,
aliás, tudo é demasiadamente simples! O início da caminhada depende,
contudo, da decisão humana de romper com seus mecanismos de defesa e
de auto-expiação e assumir a responsabilidade pessoal pelas faltas
cometidas, transgressões, erros e delitos.
Reconhecer a culpa e a insuficiência dos nossos
esforços de auto-expiação é fundamental, mas não é
suficiente. A Palavra de Deus ensina-nos que “Se confessarmos
os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e
nos purificar de toda a nossa injustiça” (I João 1.9).
Confessar, contudo, não é simplesmente fazer um relato das faltas,
como se Deus precisasse ser informado sobre nossos atos. Afinal, Ele
conhece todas as coisas (Hebreus 4.13). Confessar é acima de tudo
concordar com Deus no fato de que meus erros transgridem a Sua
vontade, reconhecer que sou merecedor da condenação, crer que Jesus
Cristo se fez condenação em meu lugar, efetuando o pagamento da
minha dívida ao levar sobre si a minha culpa, e decidir
voluntariamente e prazerosamente cumprir a Sua vontade.
Não existe confissão verdadeira sem
arrependimento verdadeiro. Arrependimento é o reconhecimento da
culpa. É despojar-me das máscaras e das sutilezas auto-expiatórias
da repressão e autocomiseração e crer na obra propiciatória de
Cristo. O senso de culpa que nos leva a Deus nos revela, assim, o
seu amor e o seu perdão. A confissão, fruto de sincero
arrependimento, traz-nos o perdão de Deus; este, por sua vez, vence
a culpa e nos traz a paz!
“Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por
meio de nosso Senhor Jesus Cristo”. (Romanos
5.1)
Por isso o apóstolo Paulo, depois ter
exclamado o desespero causado pela culpa (Romanos 7.21-24),
escreveu: “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que
estão em Cristo“. (Romanos 8.1)
Não obstante a obra de Deus ser perfeita, o
que fora perdoado pode reter na memória a culpa pelos seus erros e
fracassos! Ainda que perdoado, o cristão pode viver continuamente
acuado pelas lembranças de seus erros, penalizando-se e sofrendo os
danos da auto-acusação. A fé em Cristo, contudo, não apenas nos
livra da condenação, mas também da acusação. “(...) se o nosso
coração nos acusar, certamente Deus é maior do que o nosso
coração” (I João 3.20); e ainda: “Pois, para com suas
iniqüidades, usarei misericórdia e dos seus pecados jamais me
lembrarei” (Hebreus 8.12).