“Por esta razão, dobro os joelhos diante do Pai, de tudo que há no céu e na terra.... que ele faça Cristo habitar em vossos corações pela fé, que estejais bem firmados e enraizados no amor... assim, sereis capazes de entender, com todos os santos, qual a largura, o comprimento, a altura, a profundidade.. (da vida e da morte); conhecereis também o amor de Cristo que ultrapassa  todo conhecimento, e sereis repletos da plenitude de Deus”, Efésios 3,14-20. 

              Entre a sociedade de hoje e os intelectuais medeia um entendimento tácito: “Conto contigo - dizem os leitores - para que me forneças os meios para esquecer, disfarçar, negar, em suma, a morte. Se não cumprires este encargo, expulso-te, ou seja, não te lerei”. (Louis Vincent Thomas). “Esquecer-se da morte e dos mortos é prestar um péssimo serviço à vida e aos vivos” (Philippe Ariès).

                Existem momentos na vida, pessoal ou socialmente, em que nos vemos mergulhados em confusão. Nossas mentes e corações estão perturbados, são momentos em que as coisas parecem ter saído do nosso controle, e as palavras nada podem fazer para sanar nossa dor. Perdemos o convívio com uma pessoa querida, ela morreu. Nesses momentos, o coração e nossa voz devem unir-se num só clamor, numa única oração, refletindo sobre as palavras do apóstolo Paulo (segundo seus discípulos), de fé na acolhida de Deus. Confessamos, e então convencemo-nos de que as promessas serão cumpridas.

                 Cada um de nós conhece o seu próprio grau da experiência de Deus. Quando Cristo habita em nós, fortalezas desconhecidas (da parte do Altíssimo), tomam conta de nós; não se trata de conformação com as leis da natureza, que todos sabemos existirem, ou de resignação quanto ao destino biológico de cada um. Definitivamente, não podemos aceitar tal conformismo ou destino.  Somos transcendentais, finitos e infinitos, ao mesmo tempo. Como diria um autor de música sertaneja: somos “...como um pedaço de mel e de fel”.

                 Sábios estudiosos da vida nos ensinam que todos os seres estão destinados à morte, e que na natureza as forças estão em jogo: a força da vida e a força da morte. Yllia Prigonine, físico de renome,  apresentou com muita delicadeza que tudo o que vive é dissipativo, se desmancha, se dissolve, de modo a alimentar outras coisas vivas. Isto é, a morte alimenta a vida.  A vida sai da morte, sucessivamente. Bom aprendizado para a espiritualidade. 

                    Desse ponto de vista teremos que aprender que é preciso morrer para que novas vidas ocupem seu lugar no mundo. Como uma roseira que produz muitas flores em nosso jardim, cujos galhos mortos, que já não florescem devem ser podados para que novos galhos brotem do tronco que lhes deu vida; para que novos botões aflorem, novas cores sejam vistas, novos perfumes sejam lançados no ar em sensações deliciosas e inebriantes que identifiquem o renovo e impressionem os sentidos de muitos. Colhi esta frase num filme chinês: “Para ver e sentir o perfume das flores é preciso caminhar no jardim...”.

                    Essa idéia, que um físico conceituado apresenta na dureza das fórmulas humanas, científicas, são puras expressões da poesia da vida: se a vida sai da morte, também há um avanço na direção da eternidade das coisas e seres que  muito prezamos e que estão em constante renovação. Novas formas surgem progressivamente, cada vez mais complexas, superiores; novas sensibilidades para se valorizar a importância da vida, de cada ser e de cada morte. O Apóstolo João, em seu Evangelho, no capítulo 12:24, afirma: “...se o grão do trigo cai na terra e não morrer, ficará só, mas se morrer produzirá muito fruto”. É impressionante que tendências opostas sejam ao mesmo tempo tão importantes. Uma leva a vida a desabrochar, a se desenvolver e alcançar novas sensibilidades; outra faz deteriorar, murchar, dissolver-se em formas mais simples, como o húmus da terra, para  alimentar outras formas de vida. 

                     Não há conflito entre as duas.  Todo ser vivo nasce, amadurece e morre. O ser humano, porém, não se satisfaz com essas respostas. Quer saber o que acontecerá com o ser inteiro, porque tem consciência de sua complexidade: corpo biológico, espírito, emoções,  sensações e percepções que, juntas, a Bíblia chama de alma (nefesh e psiquê, no Antigo e novo Testamentos). Homens e mulheres sabem que têm um corpo que os faz sentir o mundo ao redor, mas seu íntimo lhes diz que a vida não é só o que seu corpo sente... a alma está oculta na neblina eterna do ser. Algo mais poderia completar esse corpo, senão a esperança humana que busca a Plenitude na glória e na beleza de Deus? [Final da primeira parte].

 

                    

                    Beethoven Nery