“Vinde
a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos
aliviarei” (Mateus
11,28)
Além de todas as
experiências, todos fomos educados no sentido de que existe a
imortalidade, que os pensadores gregos intuíram e incutiram em
nossa cultura, imortalidade não só para os deuses, mas também
para a alma humana. Isso não faz parte da fé bíblica, contudo.
Nossa fé não se origina no pensamento helênico da antiguidade,
e sim no modo de viver
e pensar dos hebreus, e isso se expressa nos dois
testamentos bíblicos: a alma é o ser inteiro em toda a sua
complexidade, envolve todos os entrelaçamentos da
sensibilidade espiritual, das emoções e sentimentos. Alma
imortal é um mito do conhecimento metafísico, concepção
estranha ao povo bíblico. Por isso os cristãos confessam que
crêem na ressurreição do corpo. Sob condições: morrendo no
Senhor, fé no Ressuscitado; fé na ressurreição de todas as
coisas. Enquanto
o ser inteiro ressuscita, todas as ressurreições acontecem.
Jesus Cristo é o único
capaz de nos dar paz em qualquer circunstância, mesmo quando
nossos olhos estão cheios de lágrimas por causa da separação
dos que completaram sua travessia pela vida. Quando temos
fortaleza para compreender “que ele faça Cristo habitar em
vossos corações pela fé, que estejais bem firmados e
enraizados no amor... assim, sereis capazes de entender, com
todos os santos, qual a largura, o comprimento, a altura, a
profundidade...; conhecereis também o amor de Cristo que
ultrapassa todo
conhecimento, e sereis repletos da plenitude de Deus”, não
necessitaremos senão aceitar o conforto que nossa fé nos
confere nos dias de tribulação. Morrer é também um encontro
com a Plenitude. Santo Agostinho dizia: “minha alma nunca
descansará enquanto não se encontrar com Deus”.
Somos seres inquietos,
inacabados, sem lugar para pousar a cabeça e descansar de
nossas muitas perguntas e indagações. Por isso, necessitamos
encontrar plenitude, que é meta de todo ser humano. Uma
palavra profética diz que em tempo de tribulação chamamos
a Deus e Ele nos ouve desde os
céus. Palavras cheias de beleza, Deus está disposto a
escutar-nos. E perguntamos sobre a dimensão profunda da plenitude. Não
podemos vê-la no recém-nascido, no botão do ser humano?
Talvez, poderemos vê-la na morte de uma pessoa querida, ou nas
crises, na falta de sentido do sofrimento? Quão mais profunda
é a realidade da morte, quanto mais profunda deveria ser a
compreensão do fim da vida no encontro ansiado das promessas
daquele que é
Tudo em todos: “entendereis a largura e o comprimento; a
altura e a profundidade; conhecereis o amor que ultrapassa
todo entendimento; sereis repletos da plenitude de
Deus”(Ef 3,14-20).
Para nós, que ainda não
morremos, a morte dos nossos queridos deve ser uma
oportunidade de mergulhar na realidade suprema do Deus vivo e
acolhedor, solidário, hospedeiro, confortador, eternamente e
para sempre. “Na casa de meu Pai há muitas moradas...”, disse
Jesus. Assim, na esperança de encontrarmos todas as respostas,
de nos completarmos plenamente, poderíamos aceitar as nossas
canseiras, nossos limites, nossas vulnerabilidades. No caminho
para o infinito há trechos demarcados pela finitude; há
trajetos finalizados entre uma jornada e outra.
Diante das enfermidades,
do envelhecimento e da mortalidade de todos os seres vivos, a
bondade de Deus nos prepara para dessedentar nossa sede da
plenitude; nos convida à reverência quanto ao mistério da
finitude biológica e da perenidade da vida, e a despir-nos
para o grande mergulho no Todo, no Tudo e no Eterno. Nossa fé
e nossa esperança fazem nossas mentes trabalharem com os
grandes sonhos de superação da morte em suas amplas
manifestações. Toda pessoa escuta uma voz, alguma vez na vida,
nem que seja num diálogo do coração com a inteligência, onde o
fundamental se expressa na sensibilidade ao amor, à
misericórdia, à compaixão e à escuta do outro e da outra.
A Fonte de Plenitude da
vida abundante, da eternidade e dos valores que sustentam as
relações verdadeiras entre homens e mulheres, aliviará nossa
sede para sempre. Com Leonardo Boff, poderíamos pensar em não
ser cínicos, nem fatalistas, nem apáticos ou conformados com
os significados da morte como parte da recriação contínua da
vida:“não podemos desprezar a aurora que vem, não podemos
desfazer o olhar inocente de uma criança, não podemos
contemplar com indiferença a profundidade do céu estrelado sem
cair no silêncio e na profunda reverência, sem perguntar-nos o
que se esconde atrás das estrelas, qual é o caminho da minha
vida, o que posso esperar depois desta vida.”
Se estamos cansados,
lembremo-nos também de aflorar nossas verdades e negações:
“Vinde a mim todos os que estais cansados e
sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mateus 11,28). O
hino nos ajuda a compreender melhor: “Ouvi o Salvador
dizer:/ vem descansar em mim...” O mesmo se dirá da bênção
anônima:“Que aquele que ressurgiu dos mortos nos faça cada
vez mais firmes na esperança de toda a criação. Que aquele que
nos protege do alvorecer ao anoitecer, da aurora ao
crepúsculo, desde o nascer até o morrer, nos abençoe e nos dê
a paz que excede o entendimento opaco do nosso viver. Que o
conforto do alcance da plenitude nos permita ver além da
compreensão turva da vida eterna, e que nos dê coragem para
enfrentar e vencer o que não compreendemos, mas havemos de
experimentar para todo o sempre. Amém“ (Selah- Liturgias
-Clai).